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Amor maduro não é ausência: como diferenciar vínculos adultos de migalhas emocionais

  • Foto do escritor: Kátia Silva
    Kátia Silva
  • 19 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Por muitos anos, o amor foi romantizado como intensidade, fusão e entrega absoluta. Para muitas pessoas, especialmente aquelas que cresceram em contextos de carência emocional, amar passou a significar necessidade urgente do outro, medo constante de perder e uma busca incessante por confirmação. Quando essas pessoas iniciam um processo terapêutico e escutam sobre “amor maduro”, é comum surgir uma confusão perigosa: será que amar de forma madura significa aceitar menos?


A resposta é não.


O amor maduro não é ausência, frieza ou indiferença. Ele é presença possível, responsabilidade afetiva e reconhecimento do outro como sujeito — e não como salvador.


O amor na infância e as marcas que levamos para a vida adulta

Na infância, amar e ser amado está diretamente ligado ao cuidado. A criança depende do outro para sobreviver emocionalmente: precisa ser acolhida, protegida, regulada e validada. Quando essas funções falham de forma significativa ou recorrente, formam-se lacunas emocionais que não desaparecem com o crescimento cronológico.

Na vida adulta, essas lacunas podem se manifestar como:


  • medo intenso de abandono

  • necessidade constante de confirmação

  • dificuldade em tolerar frustrações

  • sensação de vazio quando o outro se afasta


Nesses casos, o amor deixa de ser encontro e passa a ser tentativa de reparação.


Ser amado como criança x amar como adulto

Ser amado como criança, na vida adulta, significa esperar do parceiro funções parentais: exclusividade, previsibilidade absoluta, presença constante e proteção incondicional. Nenhum relacionamento adulto consegue sustentar esse lugar sem gerar sofrimento.


Amar como adulto implica reconhecer que:

  • o outro não existe para nos completar

  • frustrações fazem parte do vínculo

  • o amor não repara a infância


Esse movimento exige um luto importante: o luto da expectativa de que alguém, no futuro, dará aquilo que faltou no passado.


Amor próprio não é independência emocional

Muito se fala em amor próprio, mas pouco se explica o que ele realmente significa. Amor próprio não é não precisar de ninguém. É desenvolver internamente funções de cuidado e limite: acolher a própria dor, sustentar frustrações e não se abandonar emocionalmente quando o outro falha.

Quando essas funções começam a se fortalecer, o vínculo amoroso deixa de ser sobrevivência e passa a ser escolha.


A fantasia de ser cuidado e a resistência ao amor maduro

Alguns adultos acreditam, com convicção, que é justo esperar que alguém cuide deles. Essa fantasia não surge do nada — ela nasce de uma falta real. O problema é que, quando mantida na vida adulta, ela impede vínculos horizontais e sustenta relações de dependência.


Essa fantasia também funciona como defesa contra o luto: enquanto alguém “pode vir salvar”, a perda definitiva não precisa ser encarada. Por isso, sair desse lugar costuma gerar resistência e medo.


O trabalho terapêutico não é destruir essa fantasia de forma abrupta, mas torná-la desnecessária, construindo outras formas de sustentação emocional.


O papel do parceiro no amor maduro

No amor maduro, o parceiro não é pai, mãe ou salvador. Mas também não é indiferente.


Ele é alguém que:

  • oferece presença emocional possível

  • responde e se implica afetivamente

  • reconhece limites sem abandonar

  • caminha ao lado, não à frente


Esse tipo de vínculo favorece crescimento, diferenciação e segurança emocional.


Amor maduro ou migalhas emocionais?

Um dos maiores riscos para pessoas sensibilizadas é confundir amor maduro com oferta de migalhas emocionais. Relações marcadas por pouca presença, evasão afetiva e individualismo excessivo podem ser justificadas como “maturidade”, quando na verdade expressam indisponibilidade emocional.

Um critério clínico simples ajuda a diferenciar:


Esse vínculo me faz crescer ou me encolher?

O amor maduro tende a fortalecer o self ao longo do tempo. Migalhas emocionais geram confusão, ansiedade e silenciamento das próprias necessidades.


É possível ser feliz no amor maduro?

Sim — mas a felicidade aqui não se parece com euforia constante. Ela se manifesta como alívio, continuidade e paz emocional. É a possibilidade de existir no vínculo sem medo permanente de perder, sem precisar provar valor o tempo todo.

Muitos pacientes descrevem:


“Não é intenso como antes, mas é tranquilo. E eu nunca soube que amor podia ser assim.”

Considerações finais

Amadurecer no amor não é aprender a pedir menos, mas aprender a diferenciar presença possível de ausência disfarçada. O amor adulto não cura a infância, mas pode deixar de reabrir feridas antigas — e isso já é profundamente transformador.



Referências bibliográficas

  • Bowlby, J. (1989). Uma base segura: Aplicações clínicas da teoria do apego. Artmed.

  • Winnicott, D. W. (1975). O ambiente e os processos de maturação. Artes Médicas.

  • Kohut, H. (1984). Como a análise cura. Imago.

  • McWilliams, N. (2011). Diagnóstico psicanalítico. Artmed.

  • Fromm, E. (1956). A arte de amar. LTC.

  • Fonagy, P. et al. (2002). Affect regulation, mentalization, and the development of the self. Other Press.

 
 
 

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